março 15, 2005

Inventário

Nota

24

Na paisagem dispersa onde seria
possível respirar, como se o acaso
fosse diferente, e não o deus
que hoje nos escraviza ao livre-arbítrio,
o fado de ter sido assim
e não de outra maneira,
por haver tropeçado em uma qualquer esquina,
a que somente o tédio, o desejo ou
a insciência conduziram —
na paisagem dispersa onde seria
possível respirar,
o homem mede a distância do não tido
ao que hoje não terá, sozinho, sem o rosto
que por vezes lhe esconde o seu
                          entre o regaço.
Sucede raramente não saber o caminho
cheio de sem-razões, visão, sintoma
a que é vulgar a gente calculista
chamar loucura, gente em cujos olhos
brilham moedas de oiro
e que move o escritório estranho ao homem,
sem que nada ali possa libertá-lo
ou mesmo pertencer a um inventário.
Se fosse enumerar as árvores, as casas,
as estradas e os montes nas janelas,
e esta gente entre quatro muros
que finge resistir e é ignorante
— há-de surpreendê-la a morte
no espanto de não ter vivido —,
se fosse enumerar o que a vista abrange,
retiraria ao rol quanto enumerasse,
tão hostil e vazio se torna o cenário
quando lança em redor os olhos
em busca de memória, e nada lhe pertence,
e quer sair dos números,
das pastas e balanços, dos
computadores cegos ligados entre si
                                         e entre ninguém,
do gabinete cheio de janelas
de que não há quem deixe escrito:
eram umbrais por onde a luz do rio entrava.

© as musas esqueléticas

Publicado por mb em 09:25 PM | Comentários (1)

abril 24, 2004